Emagrecimento na menopausa
Postado em 19/01/2026 às 15h:45
O emagrecimento na menopausa é um tema frequentemente envolto em mitos, simplificações excessivas e uma percepção de “inevitabilidade” que não encontra respaldo na fisiologia. O que muitas mulheres interpretam como um ganho de gordura inerente e imutável da menopausa, na realidade, está muito mais relacionado a uma mudança no padrão de distribuição do tecido adiposo do que a um aumento automático e obrigatório da gordura corporal total. Essa transição é fortemente influenciada pelas alterações hormonais características dessa fase, especialmente pela redução progressiva do estradiol.
Durante o período reprodutivo, o estradiol exerce um papel central na regulação do metabolismo energético e na distribuição da gordura corporal, favorecendo maior acúmulo em regiões periféricas, como quadris e coxas. Com a queda desse hormônio na menopausa, ocorre uma redistribuição do tecido adiposo, com maior tendência ao acúmulo na região central do corpo, especialmente no abdômen. Esse fenômeno gera a percepção de “engordar”, quando, em muitos casos, o peso corporal se mantém relativamente estável, mas a composição corporal e o local de armazenamento da gordura se modificam.
Essa centralização da gordura não é apenas estética, mas metabolicamente relevante. O tecido adiposo visceral é mais ativo do ponto de vista inflamatório e hormonal, o que pode impactar negativamente a sensibilidade à insulina, o controle glicêmico e o perfil lipídico. Ainda assim, é fundamental reforçar que essa mudança não é uma sentença definitiva. Ela representa uma adaptação fisiológica a um novo ambiente hormonal, e como toda adaptação, pode ser modulada por estratégias nutricionais e comportamentais bem direcionadas.
Outro ponto crucial frequentemente negligenciado é o impacto da redução do estradiol sobre o controle do apetite. O estradiol atua em centros hipotalâmicos relacionados à saciedade, ajudando a modular a ingestão alimentar. Com sua diminuição, observa-se um aumento do apetite e, muitas vezes, uma maior facilidade para consumir porções maiores ou alimentos mais densos energeticamente. Assim, o ganho de gordura observado em muitas mulheres nessa fase não decorre diretamente da menopausa em si, mas do aumento do consumo calórico que ocorre de forma sutil, progressiva e, muitas vezes, não percebida.
Esse cenário cria um ambiente propício ao balanço energético positivo: menor sensibilidade à insulina, manutenção de hábitos alimentares pré-menopausa e aumento espontâneo da ingestão calórica. Quando esse desequilíbrio se perpetua ao longo do tempo, o ganho de gordura corporal se torna uma consequência previsível, mas não inevitável. É justamente nesse ponto que a atuação do nutricionista se torna determinante.
O profissional deve estar atento a esses sinais fisiológicos e comportamentais, compreendendo que o simples “comer menos” raramente é sustentável nessa fase da vida. Estratégias nutricionais que priorizem maior saciedade tornam-se fundamentais. Isso envolve adequação do consumo proteico, aumento da ingestão de fibras, escolha criteriosa de alimentos com maior densidade nutricional e controle da palatabilidade excessiva, que pode estimular o consumo além da necessidade energética real.
Além disso, o déficit calórico necessário para o emagrecimento na menopausa precisa ser cuidadosamente planejado. Déficits agressivos podem piorar a adesão, aumentar a percepção de fome e elevar o risco de perda de massa magra, o que agrava ainda mais a redução do gasto energético basal. Um déficit moderado, associado a estratégias que prolongam a saciedade ao longo do dia, é geralmente mais eficaz e sustentável, permitindo a redução gradual da gordura corporal sem comprometer a qualidade de vida.
É importante também compreender que o emagrecimento nessa fase não deve ser avaliado apenas pelo peso na balança. A melhora da composição corporal, com redução da gordura central e preservação da massa muscular, representa um avanço metabólico significativo.
Conteúdo escrito por: Pedro Zachhuber – professor e nutricionista.
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