Agonorexia em pacientes em uso de agonistas de GLP-1
Postado em 04/05/2026 às 15h:45
Os agonistas de GLP-1 e os agonistas duplos de receptores incretínicos consolidaram-se como ferramentas farmacológicas relevantes no tratamento da obesidade, do diabetes tipo 2 e de outras condições metabólicas associadas. Seus efeitos sobre saciedade, esvaziamento gástrico, controle glicêmico e redução de peso ampliaram o interesse clínico e, de forma paralela, o interesse midiático em torno dessas medicações. Com a expansão do uso, uma questão passou a emergir na prática: o que ocorre quando a modulação farmacológica do apetite – e a subsequente perda de peso – começa a reorganizar a forma como o paciente percebe fome, corpo e alimentação? É nesse contexto que o termo “agonorexia” circula informalmente, tanto na literatura clínica emergente quanto em meios de comunicação de saúde. O termo tem sido utilizado para descrever padrões de preocupação observados em alguns pacientes em uso dessas medicações, caracterizados por supressão intensa ou quase completa do apetite, intensificação de restrição alimentar, medo de recuperar peso, piora da relação com o corpo e com a comida, ou dependência psicológica da supressão farmacológica do apetite como principal mecanismo de controle alimentar.
A questão central não é atribuir ao medicamento causalidade direta sobre transtornos alimentares, uma vez que todo comportamento depende de contexto, história prévia e sensibilidades cognitivas que variam de uma pessoa para a outra. Em alguns pacientes, esses efeitos podem aliviar sofrimento e reduzir episódios de compulsão alimentar. Em outros, especialmente naqueles com menor flexibilidade cognitiva, rigidez alimentar ou valorização excessiva do emagrecimento, a supressão farmacológica do apetite pode interagir com fatores de risco preexistentes e amplificar comportamentos de evitação alimentar, vigilância corporal excessiva ou dependência psicológica da medicação.
A literatura sobre o tema está em desenvolvimento. Alguns trabalhos indicam que agonistas de GLP-1 podem ter papel promissor no manejo de episódios de compulsão alimentar, mas apontam lacunas relevantes: ausência de triagem sistemática para transtornos alimentares antes da prescrição, escassez de dados sobre acompanhamento longitudinal do comportamento alimentar, efeitos sobre imagem corporal ainda pouco estudados, e risco de uso inadequado em populações vulneráveis. Essa lacuna metodológica exige que a prática clínica opere com cautela e raciocínio individualizado, sem generalizações nos dois sentidos.
A atuação do nutricionista nesse cenário envolve triagem de risco antes e durante o acompanhamento, educação alimentar qualificada, monitoramento de sinais clínicos de alerta e integração com equipe médica e psicológica quando indicado. O acompanhamento nutricional não compete com a farmacoterapia. O objetivo é qualificar seu uso: o medicamento pode reduzir interferências biológicas e hedônicas no comportamento alimentar, mas não desenvolve repertório comportamental na alimentação, não consolida habilidades de regulação emocional relacionadas à comida e não reconstrói, por si só, uma relação mais funcional com o corpo.
Portanto, os nutricionistas precisam ser capazes de compreender mecanismos farmacológicos relevantes para a prática, identificar apresentações clínicas de risco em pacientes em uso de agonistas de GLP-1, e buscar manejar o padrão alimentar do paciente em um cenário crescentemente atravessado por farmacoterapia, pressão estética e expectativas de resultado aceleradas.
“Agonorexia” não constitui diagnóstico reconhecido nos sistemas classificatórios psiquiátricos vigentes (DSM-5-TR ou CID-11) e não deve ser equiparada à anorexia nervosa.
Pode te interessar também: Comportamento alimentar e nutrição