O que é o “chip da beleza” e por que esse termo é impreciso?
Postado em 07/01/2026 às 10h:15
O termo “chip da beleza” ganhou popularidade nas redes sociais e em buscas no Google, sendo frequentemente associado a promessas de emagrecimento, aumento de energia, melhora da libido e estética corporal. No entanto, do ponto de vista científico e clínico, essa nomenclatura é imprecisa, simplificadora e potencialmente enganosa, especialmente quando aplicada a terapias hormonais.
Para profissionais da saúde, compreender a origem desse termo e suas limitações conceituais é essencial para uma comunicação ética, segura e baseada em evidências.
Do ponto de vista técnico, o que se convencionou chamar de “chip da beleza” refere-se, na maioria dos casos, a implantes hormonais subcutâneos, utilizados para liberação contínua de determinadas substâncias ao longo do tempo. Esses implantes não são dispositivos eletrônicos, não possuem tecnologia digital e tampouco funcionam de maneira inteligente ou auto regulável, como o termo “chip” pode sugerir.
Os hormônios mais frequentemente associados a esses implantes incluem androgênios, como a testosterona, além de progestagênios e estradiol, isolados ou combinados. A composição, a dose e a indicação variam conforme a prescrição, o que reforça que se trata de uma intervenção farmacológica complexa, e não de uma solução padronizada ou universal.
Por que o termo é cientificamente incorreto?
A imprecisão científica do termo começa pelo fato de que “chip da beleza” não existe na literatura acadêmica, não sendo citado em consensos, diretrizes clínicas ou publicações indexadas nas principais bases científicas. Seu uso é essencialmente mercadológico, criado para facilitar a comunicação com o público leigo, porém à custa de simplificações que podem distorcer a compreensão dos riscos e benefícios envolvidos.
Além disso, a expressão tende a reduzir terapias hormonais a uma promessa estética, desconsiderando que o uso de hormônios envolve avaliação clínica individualizada, análise laboratorial, definição criteriosa de indicação e monitoramento contínuo. Ao associar hormônios exclusivamente à melhora da aparência, cria-se a falsa ideia de segurança, previsibilidade e ausência de efeitos adversos.
O que a ciência realmente reconhece?
Do ponto de vista científico, o que é reconhecido são implantes hormonais com indicações clínicas específicas, como em determinados contextos de terapia de reposição hormonal. Ainda assim, não há consenso que sustente o uso indiscriminado ou predominantemente estético dessas intervenções, especialmente quando realizadas sem critérios bem definidos e acompanhamento adequado.
Entidades médicas e regulatórias alertam para questões relevantes relacionadas a esses implantes, como a dificuldade de ajuste de dose após a aplicação, a variabilidade das formulações manipuladas e o risco de efeitos colaterais metabólicos, hormonais e cardiovasculares. Esses fatores reforçam a necessidade de cautela tanto na indicação quanto na comunicação com pacientes.
A importância de uma comunicação técnica e responsável
Para profissionais da saúde, utilizar corretamente a terminologia não é apenas uma questão conceitual, mas ética. Abandonar o termo “chip da beleza” e adotar uma comunicação baseada em ciência contribui para decisões mais conscientes, alinhamento de expectativas e maior segurança clínica. Em um cenário onde o marketing frequentemente se sobrepõe à evidência, separar informação científica de apelos comerciais torna-se uma responsabilidade profissional.
Referências científicas
Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2019.
North American Menopause Society (NAMS). Hormone Therapy Position Statement, 2022.
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Posicionamentos oficiais sobre terapias hormonais.
Glaser R, Dimitrakakis C. Subcutaneous testosterone implants in women: pharmacokinetics and safety. Maturitas, 2013.
ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Notas técnicas sobre implantes hormonais manipulados.
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