Como evitar o reganho de peso após GLP-1?
Postado em 19/05/2026 às 11h:45
A obesidade é uma condição crônica, e seu tratamento requer abordagens sustentadas a longo prazo, análogas à gestão de outras doenças crônicas, como o diabetes ou a hipertensão. Nos últimos anos, os agonistas do GLP-1 (incluindo as substâncias ativas semaglutida, liraglutida e tirzepatida, comercializadas sob marcas populares como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound) consolidaram-se como uma ferramenta altamente eficaz, capaz de induzir perdas de peso significativas. Contudo, a eficácia sustentada desses fármacos enfrenta dois grandes obstáculos: a baixa adesão no mundo real, principalmente devido ao alto custo do tratamento, e a inevitabilidade do reganho de peso após GLP-1 após a cessação da medicação.
Primeiramente, o processo pedagógico de educação e preparo do paciente para o reganho deve ser iniciado de maneira preventiva, junto ao uso do medicamento, e não de forma corretiva, apenas quando o reganho estiver ocorrendo.
Assim como toda abordagem comportamental, qualquer estratégia direcionada ao emagrecimento e à manutenção do peso perdido deve respeitar o contexto, as possibilidades e as preferências do paciente. Além disso, é fundamental reconhecer a inevitabilidade do reganho de peso, e os profissionais devem levar isso em consideração durante o alinhamento de expectativas, amadurecendo a ideia de que esse é um risco inerente à suspensão da medicação.
Estudos de ensaio clínico realizados com esses medicamentos demonstraram que os participantes recuperaram parte do peso perdido após a suspensão do tratamento, podendo chegar a um reganho de até dois terços do peso perdido no primeiro ano após a interrupção. Esse reganho não deve ser encarado como “falta de força de vontade” do paciente, mas sim como consequência da dificuldade de manutenção do peso diante das pressões fisiológicas e dos estímulos ambientais (internos e externos).
Dentre as principais pressões fisiológicas, podemos citar a redução do gasto energético de repouso (RMR), além do calculado (termogênese adaptativa) e, principalmente, a intensificação dos sinais de fome e recompensa alimentar, que persistem mesmo após o emagrecimento (Polidori et al., 2016; Hall et al., 2021).
Dessa forma, o tratamento com GLP-1 não deve ser visto como uma forma de resolução definitiva para o problema da obesidade, mas sim como um processo contínuo, que deve ser constantemente adaptado de acordo com as necessidades do paciente.
O suporte para mudanças comportamentais e de estilo de vida nem sempre é fornecido na prática clínica, comprometendo a manutenção do peso a longo prazo. Consequentemente, para que os benefícios obtidos com a perda de peso inicial sejam mantidos, é essencial que os pacientes sejam ativamente apoiados na gestão contínua do comportamento alimentar.
É importante compreender que todas as abordagens, inclusive o próprio medicamento, não fazem do sucesso no emagrecimento uma “virada de chave”, em que, uma vez resolvido o problema, o paciente poderá deixar de se preocupar com isso. Pelo contrário, trata-se de um processo contínuo e gradual.
A necessidade de intervenções complementares integradas, como o Health and Well-being Coaching (HWC), destacado por Sforzo et al. (2024), o exercício físico estruturado, o acompanhamento nutricional contínuo, o apoio social (grupos, reuniões etc.) e a terapia cognitivo-comportamental, torna-se evidente na gestão dos desafios durante o reganho de peso.
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Apesar de ainda serem escassos os estudos que avaliam a eficácia de estratégias comportamentais para manutenção do peso após o uso dos análogos de GLP-1, é importante lembrar que os desafios encontrados ao longo do processo são inerentes ao próprio emagrecimento, com ou sem medicamento. Obviamente, os mecanismos de atuação desses fármacos na redução do apetite apresentam um desafio maior quando ocorre sua retirada, uma vez que o paciente entrará em contato com um aumento da fome que não foi percebido durante todo o processo.
Dentre as estratégias que podem ser utilizadas, o aumento do tempo de atividade física, o automonitoramento semanal do peso e o suporte social (grupos, reuniões etc.) mostram-se extremamente eficazes para atenuar a magnitude do reganho. Existem evidências de que a combinação de GLP-1 com mudanças no estilo de vida resulta em melhor manutenção do peso e da composição corporal, mesmo algum tempo após a interrupção do tratamento, quando comparada à farmacoterapia isolada (Jensen et al., 2024).
Acima de tudo, é importante destacar ao paciente que o autocontrole e a tolerância ao desconforto, desde o início do tratamento, são fundamentais para minimizar esse reganho. Considera-se, ainda, que essas não são características inatas relacionadas apenas ao “não fazer” ou ao “resistir à tentação”, mas sim um processo de aprendizado e desenvolvimento de estratégias adaptativas que auxiliem no manejo das variáveis e estímulos relacionados ao comportamento alimentar durante o emagrecimento.
Conteúdo escrito por: Ícaro Silvério – Nutricionista |CRN11: 22823
Referências e leituras relacionadas
BIRK, S. et al. Healthy weight loss maintenance with exercise, GLP-1 receptor agonist, or both combined followed by one year without treatment: a posttreatment analysis of a randomised placebo-controlled trial. EClinicalMedicine, 2024. – https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2024.102475
MOZAFFARIAN, D. et al. Nutritional priorities to support GLP‐1 therapy for obesity. Obesity, 2025.
https://doi.org/10.1002/oby.24102
POLIDORI, D. et al. How strongly does appetite counter weight loss? Quantification of the feedback control of human energy intake. Obesity, 2016. – https://doi.org/10.1002/oby.21653
SFORZO, G. A. et al. Health and well-being coaching adjuvant to GLP-1 induced weight loss. American Journal of Lifestyle Medicine, 2024. – https://doi.org/10.1177/15598276241234567
WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022. – https://doi.org/10.1111/dom.14725